Jesus, cadê meu briefing? Ao acabar um trabalho de hoje (sobre títulos, mostrado abaixo) deparei-me com um fato curioso: jesus, cadê o briefing? Para a construção de títulos, deu-se o nome da empresa, o produto, uma breve descrição de suas funcionalidades e (puff). Nada mais. Para um estudante desatento de publicidade e propaganda este fato pode parecer inadmissível, mas reflete o mercado publicitário regional (entendo que,m no caso citado, a falta de briefing é proposital, permite maiores devaneios criativos, mas o fato ainda é curioso): o mercado regional não sabe fazer briefing.
Não querendo generalizar, aposto que em grandes agências catarinenses o briefing deve vir mastigadinho, bonito de ver, mas em sua grande maioria as agências locais pecam na hora de passar as informações para o papel. Talvez seja porque a profissão de Atendimento seja ainda nova no mercado local (nova em parâmetros de compreender sua importância, quando o atendimento realmente “nasceu”), talvez seja preguiça ou afobação (ou ainda falta de tempo). O caso é que o mercado precisa de bons briefings.
Para o primeiro briefing do trabalho citado acima, deu-se o seguinte: “a Volkswagen lançou o Gol Lady, uma série limitada dedicada às mulheres. Os principais diferenciais são os espelhos maiores e o conjunto de cores exclusivas, todas muito suaves, e com combinações perfeitas de tonalidades entre acabamento interior e pintura exterior”. Após o briefing, pede-se que façamos três títulos quadradões e três com muita sedução. Três títulos para que? Revista, jornal, outdoor, flyer, folder, busdoor? Ou entende-se que todos estes sejam meras adaptações de um título supremo que reja todas as outras? Cadê o enquadramento da proposta na mídia selecionada (Carratore, mereço um dez depois dessa puxada de saco pro departamento de mídia, né?)? Qual a faixa etária do público-alvo? Devo utilizar Latino como referência musical ou o Rei? Prada ou Azaléia? Praia ou Campo? Quis as demais características do carro?
Mais uma vez, compreendo que a liberdade de escolha deu-se para maior liberdade artística (?), porém é reflexo do que ocorre no mercado local, isso é. Quantas e quantas vezes nós, profissionais da área da comunicação, principalmente dos departamentos de criação, não reclamamos de ter em mãos um job que diga: fazer um anúncio de jornal parecido com o de junho do ano passado, favor se basear naquela peça de 12 de setembro.
No segundo briefing dizia: “a Trash Records lançou um coletânea de dez CD’s com “o melhor do sertanojo”, embalados em uma miniatura de lata de lixo”. Quais os cantores e músicas dos dez CD’s? Qual a percepção que o público tem da Trash Records? Quem é seu público-alvo prioritário? Entre outras.
Abaixo as opções de títulos:
Briefing 1: “A Volkswagen lançou o Gol Lady, uma série limitada dedicada às mulheres. Os principais diferenciais são os espelhos maiores e o conjunto de cores exclusivas, todas muito suaves, e com combinações perfeitas de tonalidades entre acabamento interior e pintura exterior”.
TÍTULOS SEM SEDUÇÃO:
Novo Gol Lady. O carro exclusivo das mulheres.
Gol Lady. Maiores espelhos e de cores exclusivas para vocês, mulheres.
Novo Gol Lady. Um novo conceito em sedução.
Justificativa: títulos desgastados e informativos não agregam nada à publicidade e fazem com que o público-alvo não consiga prender sua atenção na oferta. Expressões como: exclusivo, para você, um novo conceito em, não conseguem captar a atenção do target justamente por serem apenas mais um na multidão.
TÍTULOS COM SEDUÇÃO
Já imaginou Audrey Hepburn parando em frente à Tifanny’s com uma Kombi?
Justificativa: para um anúncio de página única de revista, a utilização de um ícone de feminilidade tão grande quanto Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo faz com que o público-alvo identifique-se com o produto e queira ter sua posse. A escolha da atriz também serve para selecionar um público prioritário dentre todas as mulheres dadas como público-alvo, pois entende-se que todas as mulheres com idade e condições financeiras para adquirir o produto anunciado tenham conhecimento do filme, símbolo de classe e elegância. A escolha da comparação como approach funciona muito bem em casos onde o receptor sente-se elogiado ao comprar a marca.
GO LADIES!
Justificativa: mais uma vez o título dá-se para selecionar um público prioritário entre as mulheres, em uma revista onde o anúncio é de página dupla e praticamente all-type (apenas a foto do produto, pequena, centralizada, lembrando o anúncio do novo fusca). Um público com conhecimento suficiente da língua inglesa para entender a ambigüidade da frase GO LADIES (que possui um som muito parecido com GOL LADY). Além de fazer brincadeira com o nome do veículo, dá-se a entender que é um produto destinado apenas ao público feminino, com approach de humor leve e elegante.
Único da categoria que vem com Prada, Gucci, Versace, Galliano e Dior direto de fábrica.
Justificativa: fazendo alusão às compras da mulher moderna e urbana, o título destinado a anúncio de revista duas páginas prende a atenção da mulher consumista, público prioritário de um carro que tem como diferencial espelhos e cores ornadas. Brinca também com lugares comuns entre anunciantes de carro, como “único da categoria” e “direto de fábrica”. O elenco de famosos estilistas de moda dá-se também pelo diferencial do carro, suas cores, que “vestem” o novo Gol.
Briefing 2: “A Trash Records lançou um coletânea de dez CD’s com “o melhor do sertanojo”, embalados em uma miniatura de lata de lixo”.
TÍTULOS SEM SEDUÇÃO:
O melhor do sertanojo em 10 CD’s inéditos!
A melhor coletânea do melhor do sertanojo. E o melhor: feito para você.
É trash até no nome.
Justificativa: pelo desgaste e pelas tentativas de humor frustradas, os títulos acima podem ser considerados sem apelo de sedução. Informações como 10 cd’s e cd’s de sertanojo podem vir apenas no desenvolvimento da narração. Anúncios 1x1=1 tendem a dar errado, pois não são memoráveis.
TÍTULOS COM SEDUÇÃO
Indicado para você que só vai em balada onde tem galinha caipira.
Justificativa: a primeira vista o anúncio pode parecer agressivo e ofensivo, porém o próprio nome da gravadora já indica que ela não se leva a sério, seu público-alvo também não. Relacionar sertanejo com a cultura caipira brasileira e com a galinha caipira (a mulher, no caso), atinge o público masculino freqüentador de festas que tocam este tipo de música.
Todo artista tem um passado negro (e desta vez não é um vídeo na banheira).
Justificativa: mais um anúncio que apela ao humor para atingir seu público-alvo, brinca com o passado trash das celebridades, no caso ironizado, mais precisamente da cantora Xuxa. Faz alusão às músicas de sertanojo que os cd’s contém, o passado negro de muitos artistas que viraram pop após o estouro do sertanejo nas paradas das rádios brasileiras.
Tunaram o Fuscão Preto.
Justificativa: para atingir o público mais jovem, que freqüenta festas trash e compra cd’s, uma modernizada em um dos clássicos do sertanojo, a música “Fuscão Preto”. De approach humorístico, aproxima o produto do universo do consumidor, deixando-o curioso para seguir a leitura do anúncio.
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